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O Carnaval, uma das maiores e mais vibrantes celebrações culturais do Brasil, serve de palco para uma rica diversidade de expressões artísticas. Nos últimos anos, tem se destacado pela inserção e valorização dos temas africanos, suas histórias, saberes e mitologias. Esta tendência não apenas enriquece o espetáculo com sua diversidade e profundidade, mas também desempenha um papel crucial na quebra de barreiras de preconceito e estigmas relacionados às expressões culturais e espirituais de matrizes africanas.

Um exemplo notável foi a vitória da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio no Carnaval de 2022, com o enredo centrado em Exu, uma figura proeminente na mitologia Yorubá. Este tema representou um marco significativo, desafiando as percepções errôneas e frequentemente negativas associadas a Exu, e destacando a riqueza e a complexidade da espiritualidade africana. A escolha deste enredo refletiu não apenas um reconhecimento da herança cultural africana no Brasil, mas também um movimento em direção à inclusão e ao respeito pela diversidade religiosa e cultural, tornando-se um símbolo da luta contra a intolerância religiosa.

A influência africana no Carnaval vai além dos enredos das escolas de samba. Ela se manifesta vividamente no samba, o ritmo que é a alma do Carnaval. A origem dos instrumentos do samba e seu ritmo pulsante têm raízes profundas na percussão africanista, evidenciando a conexão indelével entre a cultura afro-brasileira e suas origens ancestrais. Esses ritmos não são apenas uma forma de expressão musical, mas também uma poderosa forma de conexão com a herança ancestral africana.

No Carnaval de 2024, escolas como a Viradouro e a Portela também estão levando para a avenida, essas culturas sob novos olhares, e a um novo patamar. A Unidos do Viradouro, ao investigar a rica história e cultura do Benin, uma região crucial da costa ocidental da África, está desafiando a visão homogênea e muitas vezes estigmatizada da África. Com seu enredo sobre o Vodun Serpente, a Viradouro destaca a diversidade do continente, abrangendo diferentes territórios, mitologias, sistemas de crenças, artes, cultos espirituais e sociedades. Isso é crucial para uma compreensão mais profunda e respeitosa da África, além de desafiar o estereótipo limitado frequentemente perpetuado pela história.

A Portela por sua vez, ao retratar a história de Luiza Mahin, oriunda de território Mahi na região de Savalú no Benin, também contribui enormemente em apresentar África como uma herança rica em detalhes, cores e histórias, e acima de tudo resistente, revolucionária e combatente.

A relação do Carnaval com a África é, portanto, uma jornada de despertar ancestral. É a voz dos descendentes africanos, que ressoa através dos barracões e samba na avenida, celebrando não apenas um festival, mas uma rica herança cultural que é fundamental para a identidade brasileira. O Carnaval, com sua crescente inclusão de temas africanos não é apenas um espetáculo de cores e sons; é um poderoso instrumento de educação cultural, inclusão social e celebração da diversidade.

Bàbá Vitor Friary, sacerdote de culto Jeje Vòdún e Bàbáláwo no culto a Ọ̀rúnmìlà Ifá. Autor de livros, Psicólogo, Mestre na área e Doutorando no Centro de Estudos Africanos no IUL - aspascomunicacaoestrategica@gmail.com

* Os textos (artigos) aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do GRUcom -  Grupo União de Comunicação (Jornal União/Portal www.jornaluniao.com.br/Rádio e TV Jornal UniãoWeb).

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