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Carlos Heitor Cony, certa feita havia contado, em uma de suas crônicas, que existia uma “quase-capela”, na Matriz de Nossa Senhora da Guia, de onde dava para ver toda a fumaceira que vinha das locomotivas que chegavam no Méier, santuário esse que, por sua deixa, tinha sido demolido.

Nesta bela e modesta “quase-capela”, havia uma pia-batismal que, também, foi para o beleléu quando toda a construção foi abaixo.

Junto à bacia batismal, havia uma placa, que fora colocada por um fazedor de balões e torcedor inveterado do São Cristóvão Atlético Clube; placa essa que trazia os seguintes dizeres: “Aos 22 dias do mês de março de 1926, aqui neste batistério, foi solenemente batizado o inocente Carlos Heitor”.

Pois é. Já faz algum tempo que ele, Carlos Heitor Cony, também foi demolido, partindo desta vida e nos deixando esse grande monumento que é a sua obra e que, se Deus quiser, não será demolida, nem esquecida pelos homens.

Mas não é a respeito dele, nem da sua obra, que gostaria de escrevinhar. Não é essa a pedra que está, neste momento, no meio do caminho, entre minhas mãos e a folha de papel. Nada disso. É a inocência que, um dia, imagino, todos tivemos e que, em algum momento, todos perdemos. Essa é a pedra.

É. Mas não lamentemos a perda da inocência que um dia tivemos, porque inocência, como bem nos lembra Ariano Suassuna, não é sinônimo de bondade. Sim, o inocente é aquele que desconhece o mal, mas isso não significa, necessariamente, que o inocente seja incapaz de realizar maldades.

De mais a mais, vale a pena lembrarmos que uma das últimas coisas que Nosso Senhor Jesus Cristo disse, no alto do madeiro da cruz, foi: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem” (Lucas XXIII,34). Ele sabia, e sabe, exatamente de que material nós, seres humaninhos, somos feitos. Sim, sabe muito bem qual é o nosso naipe no baralho da vida. Nós é que não sabemos de nada, “inocente”.

Falando nisso, em conhecimento de si, quantas e quantas vezes realizamos coisas horríveis sem nos darmos conta? Se pararmos para pensar, se nos desconectarmos para refletir, iremos reconhecer uma enormidade de atos vexaminosos, cuja lembrança amarga irá nos fazer estremecer por dentro de tanta vergonha, não de “vergonha alheia”.

Ah! A dita-cuja da vergonha alheia, essa velha conhecida nossa, que todos dizem sentir, diante dos tropeços e vacilos dos outros, especialmente dos nossos desafetos, faz-se presente em nossa dormente consciência, sem dúvida alguma, porém a vergonha de si, dos nossos deslizes, essa nós fingimos não ver e, inclusive, fugimos dela tão rápido quanto o capiroto corre da Cruz.

Tanto a vergonha nossa de cada dia, que varremos para debaixo do tapete da vida, como o vexame alheio, que viram memes e, é claro, nos enchem de uma sombria alegria, nos revelam, cada uma ao seu modo, o nosso escandaloso medo diante da verdade.

Sejam as verdades graúdas, ou as pequeninas, tememos, como tememos, estar tremendo diante delas.

Em se falando de vergonha, ou da falta dela, tomemos o caso da ponte que havia sido destruída pelas intempéries que assolaram o sul do Brasil, ponte essa que ligava a cidade de Nova Roma do Sul à cidade de Farroupilha. Lembram-se do caso? Relembremos então: os moradores, diante da tragédia, não ficaram esperando a boa vontade do governo Estadual e Federal e resolveram, por conta e risco, organizar-se para arrecadar fundos e reconstruir a dita-cuja que fora destruída pelos temporais.

Criaram a Associação Amigos de Nova Roma do Sul, que arrecadou algo em torno de R$ 7 milhões e, com essa grana, reconstruíram a ponte em apenas 138 dias que, ao final, custou apenas algo em torno de R$ 6 milhões. E detalhe: uma bagual de uma ponte.

E tem outra: não perguntem qual era a estimativa feita pelas graúdas autoridades competentes, quanto ao custo da obra e, é claro, quanto ao tempo mínimo necessário para entregá-la porque, “sacumé”, a resposta é um escândalo, principalmente depois do que foi realizado pelos moradores de Nova Roma do Sul.

Sim, eu sei, a notícia é velha, mas as reflexões que ela nos suscitam são mais atuais do que nunca, infelizmente. Digo isso não apenas pela atitude magnânima dos moradores, mas também, e principalmente, pelo fato de que não fazemos a menor ideia do quanto poderiam ser menos custosos e mais eficientes os serviços públicos que nos são ofertados de norte a sul em nosso triste país.

Vale destacar que casos similares a esse, de Nova Roma do Sul, já foram encontrados em outros rincões do Brasil e, todos eles, retratam um quadro cujos os traços despertam em nós uma profusão de sentimentos que não encontram palavras apropriadas para serem expressados, mas os palavrões abundam e, obviamente, não os usaremos, por um misto de vergonha e vergonha alheia.

Enfim, graças ao bom Deus, hoje em dia, podemos ter acesso a uma infinidade de informações e, por isso, não podemos mais alegar inocência em nosso favor quando as coisas vão mal, ou se revelam escandalosamente constrangedoras.

De mais a mais, o que nos falta, diante da enxurrada de informações que chega até nós, não é censura, como alguns defendem. O que nos falta é uma boa dose de discernimento para podermos, de forma serena, e sem chiliques ideológicos, construirmos pontes de compreensão e entendimento, para nos libertarmos da nossa credulidade e da nossa intratável falta de noção e isso, meu caro, não pode ser oferecido por nenhum governante.

Dartagnan da Silva Zanela -  professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O SEPULCRO CAIADO”, entre outros livros - dartagnanzanela@gmail.com

* Os textos (artigos) aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do GRUcom -  Grupo União de Comunicação (Jornal União/Portal www.jornaluniao.com.br/Rádio e TV Jornal UniãoWeb).

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