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Há muitas questões no ar e qualquer previsão sobre o amanhã será uma precipitação. Mas a cadeia de eventos que se sucedem nesses dias de medo e até pânico permite, desde já, que se façam inferências razoáveis. Por exemplo, o mundo do trabalho se regerá por novas convenções, com parcelas das atividades sendo desenvolvidas em casa, sem mais necessidade de deslocamentos de alguns tipos de profissionais para antigos escritórios. O impacto será forte na esfera de salários e empregos.

Mais precavidos e atentos aos movimentos migratórios e mesmo a eventuais riscos trazidos por movimentações turísticas, os países impulsionarão seus sistemas de segurança e controle,  o que, por sua vez, acionará a visão nacionalista de partidos e governantes. O nacionalismo tende a se exacerbar em algumas Nações, principalmente em territórios onde líderes procuram ocupar os palcos como puxadores populistas das palmas das plateias.

As relações internacionais, mesmo sob a marca do pragmatismo que impregna negócios e empreendimentos em parceria, deverão focar um olho para áreas que integram os conjuntos estratégicos. Nesse espaço estariam os complexos energéticos, as reservas naturais e as telecomunicações, por exemplo. Sobre as teles, corre até um mote: quem delas se apodera, domina a alma de um país. Saberá tudo que corre por suas veias.

As mudanças abrangerão os mais diversos campos. Dito isto, puxemos a brasa para a nossa sardinha. E aqui, o que poderá ocorrer? Sem estender os limites da reflexão, fiquemos apenas no compartimento da política. Começando pela galeria de nossos quadros, a visão que se apresenta é que a sociedade como um todo estará à procura de um líder. Uma das lições da atual crise, que ainda não chegou aos píncaros, é de que o país está a mercê de indivíduos sem qualidades para tocar um projeto de país. Dispomos até de bons técnicos de gestão, mas nenhum com capacidade para comandar, organizar, coordenar, unir o povo em torno de uma ideia de Nação próspera e integrada a uma nova ordem mundial.

A crise tem escancarado a pequenez do governante-mor, a incapacidade de promover a união entre os três Poderes para se alcançar os valores da harmonia, da autonomia e da independência nos termos arquitetados pelo barão de Montesquieu.

Os Poderes Legislativo e Judiciário, no vácuo aberto pelo Executivo, têm se esforçado para dar respostas às demandas mais prementes, vale reconhecer. Mas essa é a hora em que se cobra do Executivo diretrizes, ação, firmeza. Este Poder sairá menor da crise, pois a manutenção de um rolo de tensões com outros Poderes arrefecerá a força desse nosso presidencialismo de cunho imperial. E se o Estado não aparece nos lugares e momentos que mais exigem sua presença, estiola-se a teia de credibilidade e esperança que deve salvaguardar os governantes.

O fato é que o presidente Jair, mesmo com mudança em seus pronunciamentos, não mais defendendo explicitamente o isolamento vertical, continua a se manter distante do Congresso e do Judiciário, e este, por intermédio de seu presidente Toffoli, tem expresso a visão que privilegia a ciência e não o "achismo" no combate ao coronavírus. O que poderá acontecer se a corda, intensamente esticada, arrebentar? Nesse momento, não há condição de se sugerir ou debater coisas como impeachment. Lembre-se que Bolsonaro ainda está confortável nos seus 30% de aprovação. Mas certo abalo impactará as instituições.

E se o presidente, ante uma paisagem de eventual devastação social – ataques, assaltos, quebradeira – avocar o direito de governar por decreto?  Já é possível, a esta altura, enxergar o presidente buscando hipertrofiar o alcance do Poder Executivo diante de outros poderes com um jogo de guerra na intenção de atrair a simpatia das audiências e emplacar uma agenda que lhe permita governar por decretos nos moldes governos ditatoriais.

Mas o Congresso se mostra precavido. Rodrigo Maia é matreiro. Sabe administrar o número excessivo de MPs que batem na Câmara. Alcolumbre e Anastasia, no Senado, também se mostram atentos. No momento, cobram-se atos do Executivo que possam desembrulhar a burocracia para distribuir recursos aos carentes. A bola está com o governo.

Seja qual for o desfecho – tempo prolongado ou mais curto – da crise pandêmica, nossa democracia dará alguns passos adiante. Teremos uma sociedade mais exigente e crítica, a cobrar transparência, melhores serviços públicos, a partir da saúde, disposição para despachar representantes que não cumpram promessas de campanha e a entrar com mais vontade no tabuleiro da política.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

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