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Estarão à mostra desenhos, pinturas, artesanatos e outras produções, frutos de oficinas terapêuticas de serviços de saúde em Londrina

Nesta semana, de terça (12) até sexta-feira (15), a Biblioteca Pública Municipal Pedro Viriato Parigot de Souza abre ao público a exposição “Saúde Mental: o Cuidado Através da Arte”. Em dois ambientes do piso térreo do local, com visitação gratuita, estarão reunidos painéis com uma série de produções feitas por usuários de diferentes serviços ofertados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), via Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), Centro de Atenção Psicossocial (CAPS III) e Serviço de Saúde Mental Volante, este um projeto-piloto para atendimento específico às pessoas que acessam os serviços de Acolhimento Institucional (abrigos e casas de passagem).

Cada um destes serviços conta com uma proposta que utiliza a arte nos processos de cuidado de vários tipos de sofrimento, em projetos que contribuem para promover mais saúde e qualidade de vida para pessoas que possuem diferentes formas de dificuldades, ou mesmo vulnerabilidades. Uma amostra dos resultados dessas iniciativas, realizadas ao longo de 2023, por meio de oficinas com atendimentos em grupo, agora estarão disponíveis para toda a população londrinense poder conhecer os trabalhos.

A exposição traz desenhos, pinturas, quadros, enfeites e itens artesanais de confecção como tapetes, painéis, cestas e outros. A Biblioteca Municipal fica localizada na avenida Rio de Janeiro, 413, Centro, e funciona das 7h30 às 18h, de segunda a sexta-feira. Apenas nesta segunda (11) não haverá atendimento no local, por conta de uma capacitação para servidores.

Ao participarem das atividades, muitas das pessoas atendidas pelos serviços descobrem nova potência e uma possibilidade de ressignificar suas agruras através da arte, o que colabora para outros projetos de vida e outras formas de se relacionar e conviver em sociedade.

A iniciativa é uma realização em parceria entre a Biblioteca Pública Municipal e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), por meio do CAPS AD, CAPS III e Serviço de Saúde Mental Volante. Estes centros estão se organizando para conseguir viabilizar o acesso dos pacientes participantes à exposição na Biblioteca Municipal, e parte deles está colaborando com as equipes profissionais na montagem e preparação do local onde estarão as obras.

Foram citadas como vantagens extraídas nas oficinas do CAPS AD, CAPS III e Serviço de Saúde Mental Volante, aspectos como maior socialização entre os grupos, mais autoestima, aquisição de novas habilidades sociais, emocionais e de comunicação. Também o aprimoramento da coordenação motora, estímulo à criatividade, independência e autonomia, redução de ansiedade, ressignificação de papéis sociais e produtivo, proteção e reabilitação da saúde, redução de danos e prevenção de recaídas.

Nas oficinas de Terapia Ocupacional do CAPS AD, no período vespertino, foram realizadas oficinas de produções artesanais de macramê, crochê, tear, caixinhas de palitos, cestas de revista e pinturas em MDF. O processo terapêutico ocupacional da aula de macramê, por exemplo, visou a mudança do foco do pensamento compulsivo pelo uso de álcool e drogas e, secundariamente, utilizar os “nós” do macramê para desfazer os “nós” da vida. Essa experiência desencadeou habilidades que os pacientes ainda não sabiam que possuíam. Houve o caso de um paciente, de 63 anos, que começou a praticar em casa, e, posteriormente, comprou seus próprios materiais e utilizou o macramê como meio lazer e fonte de renda, conforme relatou a terapeuta ocupacional do CAPS AD responsável por esse período do projeto, Geniela Lélis.

Segundo a terapeuta ocupacional Emanoelle Oliveira de Souza, que atua no CAPS AD e conduziu as oficinas nesta unidade na parte matutina, uma das ideias da exposição é resgatar e promover identidades, as qualidades que cada um possui e desenvolver novas habilidades. “Além disso, as atividades ajudam a resgatar ou reforçar o sentimento de pertencimento e reconhecimento pessoal e social. O formato da exposição, integrando produções resultantes de diferentes serviços, amplia a divulgação, aumenta a relevância e traz mais visibilidade aos trabalhos e ao público atendido”, disse ela, que foi uma das idealizadoras da exposição na Biblioteca.

Esta profissional do CAPS AD contou que as atividades abrem oportunidade para todos os pacientes se expressarem, além de facilitar a vinculação entre terapeuta e paciente. “Eles sentem-se mais à vontade para se expressar por meio das linguagens artísticas quando ainda não conseguem falar sobre seus sentimentos. Percebo que, quando utilizo atividades que envolvem a arte e atividades expressivas, a chance de interação é maior. Além de resgatar as qualidades que eles tinham, a identidade de cada um, a ideia é incentivar a persistência para concluir uma atividade, vencer seus próprios bloqueios ou paredes (de que não são mais capazes de executar algo). Considero esta uma oportunidade de essas pessoas existirem, já que os mesmos muitas vezes acabam se tornando invisíveis para a sociedade”, relatou Souza.

Atendendo o público de álcool e drogas desde 2016, ela acrescentou que aprende muito a cada grupo trabalhado nesse projeto. “Cada pessoa, dentro de sua singularidade, traz consigo uma bagagem de vida muito rica para todos. Nós, técnicos, proporcionamos oportunidade de reflexão e damos ferramentas para que eles encarem dia a dia, que é tão difícil, lutar contra a dependência. O resgate de pertencimento a um grupo, de voltar a ter voz, de ser protagonista de sua história ocorre grupo a grupo. Temos sempre que valorizar a vida e a bagagem que todos trazem (sentimentos, perdas, sofrimento, vivências) e respeitar o tempo de despertar de cada um. Então, esse aprendizado de viver junto com eles o desafio de projetos como essa exposição é muito valioso. Coisas que só se aprendem na prática, partilhando e fazendo trocas de conhecimentos”, destacou.

Para a coordenadora de Atendimento, Programação e Extensão da Diretoria de Bibliotecas, da SMC, Tatiane Batista dos Santos, é muito gratificante para a Biblioteca Municipal receber a exposição de trabalhos feitos nas oficinas terapêuticas dos serviços de saúde. “Durante a montagem da exposição, tivemos a oportunidade de conhecer alguns dos participantes, que estavam muito orgulhosos e animados para exibir suas produções. É muito importante que a população conheça mais sobre os serviços ofertados pelo município e a exposição é um meio para que isso aconteça. Além disso, também incentiva as produções artísticas dos usuários dos serviços de saúde mental e outros”, frisou.

Mais experiências

O psicólogo Sérgio Kazuyoshi Fuji, profissional da Equipe Itinerante do Serviço de Saúde Mental Volante, também foi um dos idealizadores da exposição. Ele disse que a proposta de oficinas artísticas partiu justamente do perfil dos acolhidos e acolhidas pelo serviço. “Pela minha experiência no projeto, posso dizer que o retorno do público para nós ocorreu desde o primeiro momento com a participação, com as trocas, com as vivências propiciadas. Muitos deles apresentam relatos de bem-estar, percebem que são vistos e tratados com respeito e dignidade. Vários passam a valorizar o cuidado e autocuidado, buscam tratamento quando faz sentido, retomam vínculos familiares, encontram solidariedade entre si. Há, claro, muitas formas de pensar no que pode ser um retorno, tanto pensando no atendimento dos serviços, na visão do usuário que se beneficia, na perspectiva da atuação em rede, na promoção de cuidado em espaços alternativos, entre outros fatores”, salientou.

O Serviço de Saúde Mental Volante, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), oferta atendimentos para a população, individual ou em grupos, que apresentam algum tipo de sofrimento. As entidades MMA (Ministério de Missão e Adoração) e Casa Verde (Missão Casa Verde) acolhem diariamente pessoas em situação de rua, que buscam mudar sua condição de vida.

A Equipe Itinerante formada por um enfermeiro e um psicólogo tem realizado oficinas nos grupos com acolhidos e acolhidas dessas entidades e encontrou na arte abertura para tratar de assuntos delicados e que comprometeram, em certa medida, as vidas das pessoas: situação de rua, uso de drogas, conflitos familiares, perdas e lutos, violência doméstica, pobreza, sexualidade, racismo, machismo e outros.

As oficinas, que abrangeram trabalhos com linhas, tintas, miçangas e cores, têm contribuído nos processos de autocuidado e cuidados coletivos. As obras dos usuários representam um pouco do seu infinito de identidades, potencialidades, personalidades e singularidades.

NCPML

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