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Patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura, via Promic, o projeto “Livro Aberto” convida a desafiar preconceitos “lendo” pessoas

A partir deste mês, as bibliotecas municipais de Londrina contarão com um acervo inusitado, “Livros Humanos”, ou seja, pessoas dispostas a compartilhar experiências de vida. Os leitores interessados devem se inscrever para encontros organizados pelo projeto Livro Aberto: Convite para Ler Pessoas, patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina (Promic).

No primeiro encontro, marcado para o dia 21 de fevereiro, às 14h30, na Biblioteca Pública Central, serão “publicados” sete “Livros Humanos”. Todos vão revelar episódios de suas vidas marcados por preconceitos como racismo, misoginia, capacitismo, etarismo, homofobia, entre outros. A biblioteca fica na avenida Rio de Janeiro, 413.

Inspirado no conceito da Biblioteca Humana, originada na Dinamarca e replicada em vários países, o projeto busca explorar a diversidade e a riqueza das histórias pessoais, oferecendo oportunidade para que os participantes ampliem a visão de mundo ao “ler” o outro e, de certo modo, ler a si mesmo. “A proposta é desafiar os preconceitos que todos nós carregamos, estimulando a escuta ativa de histórias autênticas de moradores da cidade, os Livros Humanos”, explicam as organizadoras, Rosana de Andrade e Christina Mattos.

O projeto prevê a realização de cinco edições nas bibliotecas municipais, sendo as duas primeiras na biblioteca central, nos dias 21 de fevereiro e 20 de março, e as demais nas bibliotecas da zona norte (24 de abril), zona oeste (22 de maio) e zona sul (19 de junho). Os encontros ficarão registrados em painéis nas bibliotecas e também em uma publicação digital.

Para a diretora de Bibliotecas da Secretaria Municipal da Cultura (SMC), Leda Araújo, trata-se de um projeto essencial para que a biblioteca exerça o seu papel humano e conheça diferentes histórias de vida e experiências. “Essa iniciativa também é importante para promover a nossa compreensão e nos ajudar a vencer alguns desafios, preconceitos e realidades que já estão incutidos em nossa sociedade. O projeto contribui com as ações da biblioteca, tornando-a um espaço vivo, rico, de partilha, de conhecimento, de diversidade e de muito aprendizado, por meio da interação com as pessoas”, enfatizou.

Como participar 

A participação é gratuita, mas as vagas são limitadas a cinco Leitores para cada “Livro Humano”. As inscrições devem ser feitas antecipadamente por meio do formulário digital “Quero Ler Um Livro Humano”, aqui. 

Para mais informações, visite www.facebook.com/livroaberto.londrina e www.instagram.com/livroaberto.londrina. Se preferir, envie um e-mail para livroabertolondrina@gmail.com ou entre em contato com a secretaria da Biblioteca Pública, no telefone (43) 3371-6500.

Quem são os “Livros Humanos”

Entre os sete “Livros Humanos” à disposição dos leitores nesta primeira edição do Livro Aberto, está a educadora e atriz Mira Roxo, que escreveu, especialmente para o encontro, “A menina ruiva e o Padre que Pegou Fogo”, uma história que viaja no tempo revelando a percepção dela sobre diversos preconceitos. “Eu aceitei o convite por causa da oportunidade de interação. Hoje, nós estamos em uma sociedade onde não existe mais o humano, existe o ser da rede social, e essa rede que o projeto propõe é uma rede humana e é muito interessante”, comentou.

Jodair Moreno, também educador e artista, vai revelar “Os Conflitos de uma Adolescência Dentro do Armário”. Na avaliação dele, o projeto é uma oportunidade de desconstruir preconceitos, por meio da partilha de vivências. “Trata-se de uma excelente chance de nos abrirmos à riqueza presente no encontro com o outro”, afirmou.

Outra educadora que faz parte do “Acervo Humano” é Poliana dos Santos, que vai compartilhar três episódios de racismo em “A Revista do Piolho e Outras Histórias”. Ela acredita que a experiência pode provocar reflexões importantes. “O preconceito mata, se não leva à morte física, vai te matar socialmente, internamente, psicologicamente, porque o preconceito é uma violência que te diminui a ponto de você, como vítima, se achar o próprio culpado ou culpada daquela violência que você está recebendo. O preconceito destrói”, declarou Santos.

“Essa Sou Eu!” é o título escolhido por Alessandra Fanelli, “Livro Humano” que vai contar um pouco da experiência como mãe de uma adolescente com paralisia cerebral. A história de cada Livro é o ponto de partida para uma conversa com os leitores e, para Fanelli, essa abertura ao diálogo é essencial para derrubar o estigma. “Eu acredito que boa parte do preconceito vem do desconhecimento, as pessoas têm medo de se aproximar, medo de perguntar, não sabem se vão ofender. Conseguimos quebrar isso quando a família ou a própria pessoa com deficiência abre a porta para o outro entender esse mundo, enxergar a pessoa, antes da deficiência”, avaliou.

Ana Lúcia Ortiz Martins, do povo Guarani-Nhandéva, aluna do curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), vai falar de racismo e estereótipo relacionados aos indígenas, compartilhando a história “Marcas do Caminho: a Jornada das Crianças Indígenas.”  Ela encara o papel de “Livro Humano” como mais uma oportunidade de conscientizar e promover respeito à diversidade. “Eu aceitei participar porque desde a minha entrada na universidade venho trabalhando as questões étnico-raciais relacionadas à população indígena, seja na literatura, seja no dia a dia da sociedade. É muito importante que a sociedade e as nossas crianças compreendam que existe diversidade no nosso Brasil e a importância de respeitar o outro”, resumiu.

“Como Eu Cheguei até Aqui” é a história que Marina Stuchi vai compartilhar como “Livro Humano”. Terapeuta psicanalista, doutora em Estudos Literários, atriz, roteirista e produtora, ela vem desenvolvendo um trabalho focado nas violências contra as mulheres. “Em muitas das minhas palestras, nos encontros que organizo com mulheres, eu lanço essa pergunta, como chegamos até o ponto em que nos tornamos vítimas de violência? E não estou falando apenas em relação aos relacionamentos amorosos, mas dos relacionamentos em geral, da construção do eu. De onde isso vem? A minha narrativa no encontro do Livro Aberto vai seguir por aí, resgatando histórias que eu vivi na infância e na adolescência”, adiantou Stuchi.

Alex Lopes, que hoje cuida de idosos e trabalha também com jardins, já foi uma pessoa em situação de rua e aceitou o convite para participar do projeto. Ele vai falar sobre esse passado e do processo de superação que está vivendo. “Eu adorei ser convidado para participar e espero que todos apoiem também, que venham escutar testemunhos de vida, para evitar que aqueles que estão vindo agora, passem, como eu passei, da vida boa para uma vida ruim. Que acreditem que há vida nas pessoas, como existe em mim e como eu acho que existe no próximo também. Querendo ou não, um papo, uma boa conversa, nos livra de muitas coisas. Foi assim que eu me recuperei”, comentou.

Para encontrar os primeiros livros, as organizadoras ouviram sugestões de pessoas e entidades que atuam em defesa dos direitos humanos. A partir de agora, a intenção é considerar também novas sugestões, inclusive candidaturas próprias espontâneas.

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