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Ester nasceu e cresceu numa casa onde praticamente todos choravam. Sua mãe e sua tia solteirona eram conhecidas carpideiras na cidadezinha onde moravam. Na casa, também moravam sua irmã mais velha, que também abraçou o ofício e já chorava compulsivamente em alguns velórios menos concorridos, e seu pai, conhecido como senhor Moreira, um sujeito muito sério que Ester nunca havia visto chorar.

A fama e credibilidade de sua família era muito grande na região, chegando a serem contratados para velórios e enterros das mais altas personalidades daquelas localidades. Até carro particular os familiares dos defuntos mandavam para buscar as carpideiras do Moreira.

Por muitas ocasiões a pequena Ester acompanhou sua mãe, sua tia e sua irmã às casas dos defuntos, onde aconteciam os velórios, porém, em nenhum momento sentiu vontade de chorar. Enquanto suas parentes com sufocantes vestidos preto e véu sobre a cabeça se descabelavam e agonizavam de tanto chorar e soluçar, comovendo os presentes e promovendo mais choradeira ainda, Ester até se esforçava, mas nenhuma gotinha de lágrima escorria de seus olhos.

Na verdade, ela nem se lembrava se alguma vez havia chorado pela perda de alguém, seja um ente querido ou desconhecido.  A última vez que chorou, foi porque apanhou de sua mãe, quando arrancou a cabeça da boneca de estimação da irmã, numa briguinha de infância.

Quando Ester ficou moça, quis seguir os passos da família e se tornar uma carpideira profissional, até porque, a tia Natalina, irmã de seu pai, já estava muito velhinha e meio esclerosada, e às vezes, esquecia que estava num velório e soltava algumas risadas.

O problema era que Ester não conseguia chorar. 

Por mais que se esforçasse, por mais que pensasse nas maiores mazelas da humanidade para tentar se emocionar e verter algumas lágrimas, ela não conseguia.

Tentou alguns subterfúgios, como pingar colírio nos olhos ou passar pedaços de cebola, mas só os deixavam vermelhos e irritados, lágrimas mesmo, nada.

Chegou a ter que devolver dinheiro para as famílias enlutadas, onde não chorou e não fez ninguém chorar.

Com sua incompetência em seguir a carreira tradicional da família, Ester desistiu da profissão de carpideira. Logo, foi morar na casa de parentes numa cidade maior, estudou e se formou em pedagogia. Agora é professora da rede estadual.

Dias desses, recebeu a triste notícia que sua tia Natalina havia morrido. Ao chegar ao velório, ainda não conseguia ficar triste, até que viu seu pai chorando ao lado do caixão da irmã.

E então, Ester finalmente chorou.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2022 relançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores, disponível na Amazon, Americanas.com, Estante Virtual e Submarino. rodrigojacutinga@hotmail.com

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