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O boteco do seu Raimundo nos finais de semana estava sempre lotado. E não era só de bebuns sem eira nem beira, o boteco do seu Raimundo era frequentado por jovens e estudantes bem-apessoados.

Talvez, porque o bar ficava na saída do bairro, bem na divisa onde acabava o paralelepípedo e começava a estrada de terra que rumava até a vizinha cidade, onde havia uma escola técnica. Esses jovens frequentadores eram alunos que sempre passavam em frente ao bar, mas às quintas e sextas-feiras enroscavam para tomar cerveja, paquerar e jogar conversa fora.

Seria mais um botequinho de beira de estrada, com o chão de terra batida e telha Brasilit, se não fosse um detalhe: o bar era sujo. 

E quando estou dizendo que era sujo é porque tudo no bar era imundo, até o seu Raimundo, que, se não era sujo no corpo, tinha imundo no nome.

Para se ter uma ideia, existia tanta barata no boteco saindo por todos os lados e frestas que era preciso prestar atenção nas porções de azeitona ou amendoim, para não mastigar baratas salgadinhas.

Apareciam também muitas aleluias, besouros, grilos, pernilongos e com isso surgiam sapos de todos os tamanhos e aspectos asquerosos. O pessoal gostava dos sapos, costumavam besuntar aleluias com pimenta e dar para os sapos comerem. Os coitados dos batráquios pulavam de um lado para o outro com a linguinha pegando fogo.

Raridade no bar do seu Raimundo era copo limpo. Geralmente os copos vinham até a mesa todos ensebados de gordura ou com resto de sabão grudado na parte de dentro. Era preciso levantar e ir até o tanque ao lado do bar e cada um lavar seu copo.

Banheiro, só tinha um vaso sanitário que era usado pelas mulheres, já os homens desaguavam na beirada da cerca no fundo do bar mesmo.

Tudo era simples, tudo era humilde e tudo era sujo.

Não dá para entender o que atraia tanta gente naquele bar, todo mundo reclamava, fazia cara de nojo, mas não deixava de frequentar.

Pode ser o seu Raimundo, que era uma figura carismática. Todos gostavam daquele sujeitinho contador de causos que gostava dos seus golinhos de cachaça. 

E provavelmente deve ser isso mesmo, pois logo depois que seu Raimundo infelizmente veio a falecer, seus filhos fizeram uma reforma no bar, construíram banheiros, colocaram piso, azulejo e acabaram com os bichos do lugar. 

Em pouco tempo todos deixaram de frequentar o boteco.

Hoje, o lugar está abandonado, o teto caiu e as paredes estão em ruinas.

Mas... no meio dos entulhos, as saudosas baratas e os sapos comedores de pimenta ainda frequentam o bar.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2022 relançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores, disponível na Amazon, Americanas.com, Estante Virtual e Submarino.  rodrigojacutinga@hotmail.com

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