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Januário desde os tempos de escola era muito inteligente. Se interessava por matemática, história e literatura, contudo, sua maior paixão era a música.

Com sete anos, já sabia ler partituras e tocava piano e violão. Com dez anos participava de várias bandas formada por adultos em sua cidade, como tecladista ou guitarrista, ou os dois.

Além dos estudos e da música, Januário também tinha talento para as artes plásticas, escultura e artes cênicas. No esporte, jogava muito bem futebol, handebol e basquete, além de ser imbatível no xadrez e gamão.

Com apenas quinze anos, Januário falava inglês e espanhol fluentemente, e devido às suas qualidades, era estagiário em uma conceituada empresa de exportação e importação de produtos automotivos, com um promissor futuro pela frente.

Porém, Januário tinha um defeito que lhe causara uma incomensurável vergonha e até comprometia sua autoestima, mesmo com tantos predicados em sua vida.

Januário não sabia descascar laranja.

Desde pequenino, se encantava com sua mãe circulando a faca em torno das laranjas enquanto a casca se soltava inteirinha da fruta, sem arrebentar. A laranja ficava envolta apenas com uma fina camada sobre seus gomos.

Aquilo era uma arte.

Já Januário, por mais que possuísse as mãos firmes e talentosas de um escultor, não conseguia manter a faca envolvendo a fruta que acabava toda machucada, com os gomos cortados ou toda estrebuchada.

Por mais que tentasse, sempre a casca arrebentava, tirava um naco da fruta e a laranja ficava irreconhecível.

Com o passar dos anos, Januário se formou em Relações Internacionais e atualmente, passa boa parte de sua vida viajando pela Europa e Estados Unidos à negócios.

Apenas em suas férias ou no final do ano, Januário retorna ao Brasil, revê os amigos, sai para tomar umas cervejas e falar das aventuras de infância, organizam apresentações de suas antigas bandas de rock, onde Januário mostra cada vez mais um aprimoramento de seu talento, além dos churrascos com a turma, ou a galinhada, ou a vaca atolada, ou suã com arroz...

Menos a feijoada.

Porque na feijoada vai laranja e Januário tem trauma por ainda não conseguir descascar.

O que o deixa deprimido e triste.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2022 relançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores, disponível na Amazon, Americanas.com, Estante Virtual e Submarino. rodrigojacutinga@hotmail.com

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