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Na minha rua, praticamente todos os vizinhos se dão bem. Tem um ou outro um pouco mais esquentadinho, que reclama escondido dos latidos do cachorro de outro vizinho, ou do som alto aos finais de semana na casa alugada pelos rapazes que vieram de uma cidade do Paraná, que não me lembro o nome, para trabalharem numa fábrica de garrafas de cerveja que abriu aqui na minha cidade.

Mas, atualmente, na maioria dos dias, essa rua é bastante silenciosa, principalmente à noite.

Porém, há muito tempo, não podíamos dizer o mesmo sobre o cheiro.

A partir das sextas-feiras já começava a fumacinha dos churrascos envolvendo todas as casas, trazendo aquele cheirinho de carne assada que assanhava todo mundo.

 — Hum! Deve ser picanha!

— Está parecendo mais maminha!

O cheirinho se espalhava pelo bairro e logo atiçava a curiosidade de todos os moradores em saberem onde estava sendo realizado o churrasco e quais carnes estavam assando.

Muitos não se conformavam e corriam ao mercado para comprarem carnes e carvão, e também tacavam fogo na churrasqueira. Então começava a disputa pelo churrasco mais cheiroso e mais animado. 

Alguns amigos, aproveitavam a ocasião e faziam via sacra em cada churrasco, comiam as várias qualidades de carne, bebiam cerveja, enchiam a cara e decidiam qual havia sido o churrasco vencedor naquela semana.

Contrafilé, maminha, picanha, miolo de alcatra, costela, fraldinha, filé mignon, cupim, linguicinha, asinha de frango, panceta e até pão de alho. A disputa era intensa, com os mais variados temperos e acompanhamentos.

Mas, os churrascos mais concorridos precisavam ter animação! E dá-lhe pagode, sertanejo, funk, axé e até rock, tudo para cativar e atrair o maior número de participantes, que só precisavam levar o que fossem beber em seus próprios coolers ou caixa de isopor, para não correrem o risco de levarem cerveja top e terem que tomar água de xixi.

As disputas eram bastante acirradas, churrasqueiras de latão, de alvearia, de tijolos e até de roda de caminhão, não importava onde a carne era assada, e sim, a carne no prato e a cerveja no copo. Dessa forma, a qualidade do que era comido foi caindo vertiginosamente com o decorrer do tempo. Chegando ao ponto, que não importava mais se era servido acém muxibento ou contrafilé, o que importava era parecer mais animado, com mais alegria e descontração, mesmo com a carne parecendo chiclete.

As disputas pelo melhor churrasco chegaram ao fim, quando um gaúcho que também havia chegado à cidade para trabalhar na fábrica de garrafas, decidiu abrir uma churrascaria tradicional numa área bem no meio do bairro.

Agora, todo final de semana o bairro é inundado pelo delicioso aroma do churrasco gaúcho, porém, todos os moradores podem apreciar as variadas carnes e acompanhamento sem aquelas disputas ridículas, e sem ter que tomar cerveja com gosto de água de xixi. 

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2022 relançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores, disponível na Amazon, Americanas.com, Estante Virtual e Submarino. rodrigojacutinga@hotmail.com

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