Digite pelo menos 3 caracteres para uma busca eficiente.

As luzes da casa eram apagadas e apenas o clarão da tela branca do computador fazia com que os objetos em cima da mesa ficassem visíveis em meio à penumbra. Como fazia religiosamente todo dia, o aspirante a escritor esperava o anoitecer e o fim da novela para se desligar do mundo, desligar a TV, as luzes e o dia.

Quando chegava o momento de se dedicar ao que realmente gostava, tudo o mais de sua simplória vida de funcionário público ficava em outra dimensão. Agora não mais protocolava documentos e encaminhava vias a diversos departamentos, agora era escritor.

Mesmo que nenhum de seus escritos ainda foram lidos pelo público em geral, apenas alguns contos lidos de relance pela dona Solange, a faxineira que vinha uma vez por mês dar um trato na casa do Dito Escritor.

Digo, Dito Escritor, porque era como todos o chamavam. Na verdade, seu nome era Benedito Custódio de Almeida Carvalho, belo nome para um escritor, mas o pessoal lá do departamento de água e esgoto o chamavam de Dito Escritor mesmo.

No silêncio da noite tudo isso ficava para trás, pois sua veia artística precisava aflorar, e como todo escritor, a arte das letras consome muito mais expiração do que inspiração. Dito Escritor penava para poder transformar a tela banca de seu computador em uma historinha romântica, uma aventura ou um texto de humor.

A famigerada tela branca.

Quantas e quantas noites Dito Escritor buscou no fundo de sua alma algum assunto que valia ser escrito, palavras bonitas, bem colocadas, bem ortografadas, no coloquial ou no formal, porém, aquela tela branca era uma barreira.

Transpor a tela branca se tornara a guerra noturna daquele homem de muita vontade, até que seus olhos pesados e cansados de tanto protocolar o dia inteiro se deixavam fechar e quando acordava, a madrugada havia chegado e nenhuma letra digitada.

A maldita tela branca.

Como pode um escritor ter tamanha dificuldade com uma simples tela branca? Seria como uma folha em branco nos tempos da pena? Ou a folha A4 envolta na bobina de uma máquina de escrever?

Dito Escritor pensou seriamente em parar de escrever. Tinha dúvidas de sua vocação e seu talento. Não poderia travar uma luta toda vez que se deparava com a tela branca de seu computador...

Entretanto, Benedito Custódio de Almeida Carvalho não desanimou e depois de algum tempo, se tornou um famoso cronista local.

Atualmente, escreve semanalmente para o jornal da cidade e até venceu dois concursos de literatura em cidades da região.

Superou o bloqueio criativo e hoje escreve em seu computador, com as letras brancas numa tela preta.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2022 relançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores, disponível na Amazon, Americanas.com, Estante Virtual e Submarino. rodrigojacutinga@hotmail.com

#JornalUnião

Utilizamos cookies e coletamos dados de navegação para fornecer uma melhor experiência para nossos usuários. Para saber mais os dados que coletamos, consulte nossa política de privacidade. Ao continuar navegando no site, você concorda integralmente com os termos desta política.