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Recusa de profissionais e alto custo na rede particular pesam na decisão das mulheres

As gestantes de Londrina, no Paraná, estão migrando para o Sistema Único de Saúde (SUS) em busca de profissionais que garantam o parto humanizado sem sobrecarregar o orçamento da família. A afirmação parte do levantamento do Ministério da Saúde, através da Classificação de Robson, que aponta a via natural como 47,16% dos nascimentos nos hospitais públicos da cidade em 2023. Esse índice cai para 23,10% nas maternidades particulares.

Na Maternidade Municipal Lucilla Ballallai,  por exemplo, os partos normais somaram 64,54% dos procedimentos. Por outro lado, a Santa Casa registrou apenas 3,92%.

“Muitas gestantes escutam durante o pré-natal que seus médicos só fazem cesária. A mulher se vê na obrigação de aceitar as condições do obstetra ou mudar de assistência na hora do parto”, afirma a Isabela Garrido, especialista em ajudar mulheres durante o parto humanizado.

Os dados do governo federal confirmam a tendência da rede particular de priorizar a cesariana no Brasil. No ano passado, 69,59% dos nascimentos em hospitais foram por cesária  enquanto o SUS registrou 49,57%, uma porcentagem ainda alta se considerada a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 15% para preservar a vida e o bem-estar das mães e bebês.

“Esses índices mostram que não há respeito pelo desejo das mulheres de terem seus filhos da forma natural”, diz Isabela. A doula cacula que apenas dez obstetras acompanham partos normais em Londrina atualmente.

Débora Camila de Souza, 29, conta que o primeiro obstetra consultado através do plano de saúde disse que não poderia acompanhá-la em um parto normal. “Ele morava em outra cidade e não tinha disponibilidade.”

Ela e o marido, Luiz Henrique Dias, 29, decidiram tentar outro profissional do convênio. “Dessa vez o médico falou que fazia o parto normal, mas ao longo das consultas começou a colocar dificuldades. Chegou a dizer que o meu bebê era grande e talvez eu não conseguisse porque era o meu primeiro filho.”

A mãe de Noah, hoje com 9 meses, conta que a decisão de ir para o SUS aconteceu quando passou mal em uma madrugada e o médico não respondeu a sua mensagem. “Ao contrário da doula que me orientou e tranquilizou”, relata Débora que contratou a profissional para acompanhá-la no parto na rede pública.

Os últimos registros da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que 21 usuárias de planos de saúde utilizaram o SUS para ter o parto normal em Londrina apenas em 2021. Em uma década, esse número chega a 164 em uma contagem subestimada, reconhece o relatório do órgão federal.

Há ainda aquelas que abandonam o convênio para seguir pelo SUS.

Esse é o caso de Gabriella Abreu, 22 anos, e Nicolas Groh, 21. O casal avaliou que adicionar a cobertura do parto ao plano de saúde sairia do orçamento e decidiu pagar o pré-natal e ir para a maternidade municipal na hora do bebê nascer.

Gabriella começou o pré-natal pelo SUS, mas não gostou do atendimento nem tinha acesso a ultrassonografias. “Por isso resolvi fazer o acompanhamento da gravidez com a ginecologista que já me acompanha há anos. Ela também faria o parto, mas os custos ficariam muito altos. O total poderia chegar a R$ 15 mil”, ressalta a mãe de Martina, de 8 meses.

A obstetra Mariana Nonaka observa que a gestante bem orientada provavelmente vai preferir o parto normal. “A cesária sem necessidade traz riscos tanto para a mãe quanto para o bebê assim como uma cesariana indicada salva vidas. É preciso sempre considerar o caso da paciente e humanizar todas as vias”, explica a médica que atende em consultório particular e hospitais públicos.

No entanto, Mariana reconhece a dificuldade dos obstetras de acompanharem o processo natural do nascimento através dos planos de saúde. “Financeiramente não compensa porque o profissional tem que dispensar muito tempo. Pode ter que remarcar consulta, cancelar procedimentos ou abrir mão de plantão.”

A advogada Isabella Oncken explica que os médicos podem se recusar a fazer um procedimento, salvo as situações de emergência. “Mas também já vi muitos casos em que o obstetra disse que estaria presente no parto normal e no decorrer do pré-natal encontrou uma razão para convencer a gestante de fazer cesariana.”

Além disso, a especialista em direito das gestantes, reforça que os custos colocam em xeque o acesso da mulher ao parto normal. “Os médicos podem fazer uma cobrança casada ao impor uma taxa de disponibilidade, por exemplo, que pode chegar a R$ 7 mil”, pontua.

A Secretaria de Saúde de Londrina não identifica as mulheres que migram do privado para o SUS, mas reconhece que isso acontece. “Há muitos profissionais da medicina suplementar dos convênios que quando a mulher chega para fazer o pré-natal,  já sinalizam que não fazem parto normal e quando fazem tem a questão de pagar um valor diferenciado. É como se fosse uma taxa para ficar disponível para essa mulher”, confirma Priscila Colmiran, coordenadora de Saúde da Mulher na Diretoria de Atenção Primária à Saúde.

Helen Sin/Asimp

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