Produtores rurais da Região Sul devem reforçar o planejamento para enfrentar os possíveis impactos do fenômeno El Niño, que tem previsão de permanência até o início de 2027. O alerta envolve principalmente o risco de chuvas mais intensas, aumento da ocorrência de doenças nas lavouras e dificuldades em operações como plantio e colheita.
Diante desse cenário, sete unidades da Embrapa elaboraram uma nota técnica com recomendações para reduzir prejuízos e orientar agricultores sobre medidas preventivas. O documento reúne informações para diferentes cadeias produtivas, incluindo soja, milho, arroz, trigo, frutas, hortaliças, pecuária e sistemas florestais.
A previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indica probabilidade de 97% a 99% de permanência do El Niño até o começo de 2027. Para o Sul do Brasil, a expectativa é de aumento das chuvas, maior nebulosidade e temperaturas acima da média durante o inverno.
Segundo os pesquisadores, o fenômeno não significa necessariamente perdas para todos os produtores, mas exige atenção e decisões antecipadas para reduzir riscos.
“Hoje sabemos muito mais sobre o El Niño do que sabíamos na década de 1980. O desafio não é prever o fenômeno, mas transformar esse conhecimento em decisões no campo”, afirma o pesquisador Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo.
Para ele, o histórico de eventos climáticos anteriores permite que produtores e técnicos adotem estratégias mais eficientes. “O conhecimento acumulado sobre eventos anteriores permite reduzir riscos e, em alguns casos, até aproveitar condições ambientais favoráveis para determinadas culturas”, destaca.
Planejamento é principal ferramenta contra prejuízos
Entre as principais recomendações aos agricultores estão o acompanhamento das previsões climáticas oficiais, o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), o planejamento dos investimentos e a contratação de seguro rural.
A Embrapa também orienta que produtores ajustem expectativas de produtividade e evitem decisões baseadas em cenários de rendimento acima da realidade prevista para períodos de maior instabilidade climática.
Nas lavouras de soja, milho e arroz irrigado, os cuidados devem incluir melhorias na drenagem, conservação do solo, prevenção contra erosão e monitoramento constante de doenças favorecidas pelo excesso de umidade.
Para culturas de inverno, como trigo, cevada e aveia, as recomendações envolvem atenção ao manejo da adubação, prevenção de doenças e planejamento da colheita.
Fruticultura está entre as atividades mais vulneráveis
A produção de frutas aparece entre os setores com maior risco diante dos impactos do El Niño. O excesso de chuva pode comprometer o desenvolvimento das plantas, prejudicar raízes e aumentar perdas relacionadas a doenças e eventos extremos.
De acordo com o pesquisador Alex Mayer, da Embrapa Clima Temperado, produtores precisam estar preparados para diferentes situações.
"A produção de frutas é muito sensível. Além do encharcamento do solo, que pode comprometer o sistema radicular e levar à morte das plantas, também podem ocorrer perdas provocadas por ventos intensos, granizo e erosão, prejudicando pomares, estruturas de cultivo e a própria produtividade", explica.
A nota técnica também apresenta orientações para atividades como silvicultura, horticultura, pastagens e plantas de cobertura, destacando a importância de sistemas produtivos mais adaptados às mudanças climáticas.
Informação e prevenção ajudam produtores
Além das ações dentro das propriedades, os pesquisadores reforçam a necessidade de ampliar o acesso dos agricultores a informações técnicas e previsões atualizadas.
Para José Reinaldo Moraes, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, o El Niño deve ser encarado como uma mudança no padrão de risco, e não como uma certeza de prejuízos.
“A principal mensagem da publicação é que, embora o El Niño exija atenção, ele é um evento previsível e não é sinônimo de problema garantido e, sim, de mudança de padrão de risco. Seus impactos podem ser reduzidos com planejamento antecipado, adoção de boas práticas agrícolas e acesso a informações técnicas qualificadas”, afirma.
Segundo os pesquisadores, a adoção de medidas preventivas é fundamental para aumentar a capacidade de resposta do setor agropecuário diante de períodos de maior instabilidade climática.
“Não podemos mais aceitar passivamente a inabilidade para lidar com impactos adversos”, ressalta Gilberto Cunha. Para ele, as experiências de eventos anteriores devem servir como referência para que produtores mantenham atenção e estejam preparados para possíveis dificuldades no campo.
Com informação da Embrapa Clima Temperado