2024 será realmente um ano de grandes desafios para o Agro.
Com uma colheita de soja na faixa de 20 a 30scs/ha e um endividamento pesado, quem devo escolher para pagar?
Pagarei o dono da terra arrendada? O fornecedor que me deu crédito para os insumos da lavoura? Ou o Banco que financiou o meu custeio e/ou as minhas máquinas?
Em boa parte do Mato Grosso e de outros Estados do Centro-Oeste, a tomada de decisão será um cobertor curto. Invariavelmente, tapar os pés implicará em destapar o umbigo (que antes era o pescoço).
A reestruturação da atividade, principalmente das dívidas, será um processo árduo para muitos Produtores nas regiões castigadas por esta seca que já se mostra épica.
Feito urubus atrás de carniça, advogados ávidos por honorários opulentos já estão por todas as partes, vociferando aos quatro ventos as benesses da “solução mágica” das Recuperações Judiciais.
Dificilmente no Agro, onde predominam as estruturas familiares de administração, se pode esperar uma recuperação efetiva da crise sem que rupturas traumáticas aconteçam.
Aquele(a) filho(a), cônjuge ou anexo (genro, nora ou cunhado(a)) que ganham muito mais do que ganhariam no mercado e que não oferecem o correspondente em termos de qualidade de trabalho, precisarão ser retirados do negócio imediatamente.
Ativos que não fazem parte da atividade, que em momentos de fartura drenaram o caixa e o lucro que deveria ter sido reinvestido, como imóveis caros na cidade ou na praia, carros de luxo, lanchas, aviões e outras excentricidades do gênero deverão ser eliminados. Terras adquiridas com dívidas precisam ser vendidas ou entregues. Gastos excessivos precisarão ser cortados sem a menor piedade.
Há muito que se fala que o “CAIXA É O REI”. Eu mesmo já repeti esse mantra à exaustão nos últimos anos. Agora é chegada a vez do “REI DO CAIXA”.
Saber o que fazer com o CAIXA será tão ou mais importante do que ter o CAIXA. Construir e manter relações de confiança com os fornecedores de crédito sempre foi muito importante, agora se tornará a verdadeira essência.
Arrendamentos deverão ser renegociados em bases mais adequadas para o Produtor, o que implicará em contratos com prazos maiores (preferencialmente de 10 anos ou mais). Os valores por hectare precisarão estar ajustados à realidade da produção para que permitam a realização de investimentos e se obtenha, ao final, o devido retorno. Hoje, o que se verifica na maior parte dos casos, é o Arrendatário pagando muito caro para trabalhar na área do Proprietário (quase subserviência), obtendo um ganho líquido muito menor do que o valor pago e arcando com 100% dos riscos. Trata-se de uma relação juridicamente frágil e economicamente inviável, se considerados com frieza os investimentos necessários para produzir com qualidade, diante dos custos de oportunidade e dos riscos envolvidos. Saber calcular o "EVA" nunca foi tão importante!
O investimento para uma recuperação concreta NÃO CONSISTE na contratação de um advogado da moda, mas sim na identificação e na captação do Capital Humano capaz de enfrentar as dificuldades e extrair a máxima performance do negócio agrícola.
Me refiro a muito bons Engenheiros Agrônomos, assim como outros profissionais:
i) Administradores financeiros com relacionamento bancário sólido e experiência efetiva na comercialização de grãos, profundos conhecedores das alternativas de hedge;
ii) Contadores;
iii) Gestores de Compras e de Custos;
iv) Analistas de Sistemas que saibam organizar os dados vindos do campo e construir mapas a fim de subsidiar a tomada de decisões estratégicas para a melhor alocação dos recursos;
v) Gestores de RH conhecedores das peculiaridades do setor que possam elaborar políticas de remuneração adequadas, visando atrair talentos e reter os melhores funcionários das fazendas.
Decisões difíceis terão de ser tomadas. Relações familiares e de amizade serão irremediavelmente rompidas. Haverá a quebra da confiança comercial. O crédito permanecerá escasso e caro por um longo período.
Muitos Produtores Rurais que ainda estão à frente da atividade construíram os seus patrimônios, literalmente, na base do “sangue, suor e lágrimas”, mérito que se estende, por justiça, as esposas que os acompanharam nessa trajetória.
Os mais veteranos certamente que atravessaram dificuldades sérias no passado. É muito provável que mantenham os atributos do aprendizado e a fortaleza psicológica necessária para se saírem exitosos de mais um desafio.
Terá a geração mais nova a mesma capacidade? Tenho muitas dúvidas sobre isso. Quem nunca passou por sacrifícios pesados costuma enxergar a realidade e vislumbrar o futuro com lentes muito diferentes, não contando com as mesmas ferramentas dos antecessores que foram forjadas na dor da experiência. É preciso que a geração mais nova tenha a coragem de renunciar a determinados confortos, a dar um ou dois passos para trás a fim de avançarem mais sólidos no médio-longo prazo. É fundamental saberem lidar com o EGO, eliminar a ostentação e as futilidades das mídias sociais e no âmago avaliarem friamente as suas relações conjugais, muitas das quais podem estar baseadas no interesse puramente material.
Antevejo muito sofrimento. Nestas horas, a resiliência dos “POBRES-RICOS” é infinitamente superior à dos “RICOS-POBRES”.
Muito cuidado com a falácia das Recuperações Judiciais no Agro. Elas enriquecem grotescamente os advogados e administradores judiciais (muitos são verdadeiramente sócios), além dos fundos de aquisição de “ativos estressados”.
Ao final, o que fica é um rastro de destruição irreparável. Estatisticamente, o índice de recuperação é menor do que 20%, resultando na total falência do requerente e numa cascata de prejuízos para terceiros.
É preciso ter muita coragem e fortaleza de caráter para cortar na própria carne a fim de se reestruturar um negócio. Muitos Produtores Rurais carregam esse traço no DNA. É por causa destes homens e mulheres que o Agro se tornou a potência que é.
O Agro não é e nunca foi lugar para os fracos! Definitivamente, não pode ser refúgio para os incompetentes e muito menos para os desonestos.
(Eduardo Lima Porto)